sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Com a nova lei, onde é proibido fumar? E onde é permitido?

Bárbara Campos
Bárbara Martins
Renata Brandão


Pela Lei Anti Fumo fica proibido fumar em...

♦Recintos de uso coletivo, público ou privado;

♦Instituições de ensino e saúde;

♦Hotéis, pensões; restaurantes, lanchonetes, bares e cafés;

♦Casas de música e de espetáculos, boates, danceterias, museus, teatros, salas de projeção, bibliotecas, cinemas, salas de exposição e locais onde se realizam espetáculos circenses;

♦Mercados, supermercados e demais espaços fechados de venda de alimentos;

♦Ginásios esportivos, clubes e academias;

♦Ambientes de trabalho;

♦Shoppings e áreas comuns de edifícios e condomínios (residenciais e comerciais); elevadores e postos de gasolina.

♦Igrejas, templos e outras edificações de culto religioso;

♦Interior dos equipamentos do transporte coletivo e em táxis, ônibus, micro-ônibus e vans de transporte comercial, público;

Mas é permitido fumar em...

♦Ruas, praças, espaços ao ar livre, residências e tabacarias;

♦Residências, vias públicas e em áreas ao ar livre;

♦Estádios de futebol;

♦Quartos de hotéis e pousadas, desde que ocupados por hóspedes.


Fonte: Ministério da Saúde

O que você não sabia sobre o cigarro...

Bárbara Campos
Bárbara Martins
Renata Brandão



♦ Um terço da população mundial adulta, cerca de um bilhão e 200 milhões de pessoas, têm o hábito de fumar

♦Noventa por cento dos casos de câncer de pulmão ocorrem em tabagistas. E doenças como infarto do miocárdio e AVC (derrame), principais causas de morte no mundo ocidental, podem ser causadas pelo tabaco.

♦Segundo o Ministério da Saúde, o poder público gasta com o tratamento de fumantes duas vezes mais do que arrecada com os impostos do cigarro. Em outras palavras, o cigarro provoca um prejuízo anual para o sistema público de saúde de, pelo menos, R$338 milhões, o equivalente a 7,7% do custo de todas as internações e quimioterapias no Brasil.

♦ A fumaça do cigarro reúne, aproximadamente, 4,7 mil substâncias tóxicas diferentes e muitas delas são cancerígenas.

♦ O tabagismo está ligado a 50 tipos de doenças como câncer de pulmão, de boca e de faringe, além de problemas cardíacos.

♦ Que crianças com sete anos de idade nascidas de mães que fumaram 10 ou mais cigarros por dia durante a gestação apresentam atraso no aprendizado quando comparadas a outras crianças.

♦ São Paulo é a capital que ocupa a primeira posição, com 21% de fumantes, seguida por Porto Alegre (19,5%); Belo Horizonte (19,3%) e Campo Grande (19%).



Fonte: Ministério da Saúde

LEI ANTI FUMO TRAZ ECONOMIA E BEM ESTAR

O Projeto de Lei 3035/09 que proíbe o fumo em locais fechados de uso coletivo, em Minas Gerais, foi aprovado no dia 27 de outubro de 2009 pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

A proposta dos deputados Alencar da Silveira Júnior (PDT) e Gilberto Abramo (PMDB) estabelece que “nos recintos coletivos fechados públicos e privados, somente poderão ser destinadas à prática de tabagismo áreas isoladas por barreira física, com arejamento suficiente ou equipadas com aparelhos que garantam a exaustão do ar para o ambiente externo”. Danceterias, bares e restaurantes só poderão admitir o fumo no recinto se houver área separada por barreira física para os fumantes.

Em entrevista coletiva aos alunos do 4º período de jornalismo da PUC Minas, o deputado Alencar da Silveira Júnior justificou a permissão de fumódromos em Minas Gerais. “Fumódromo é uma necessidade para garantir a constitucionalidade da lei”, disse.

A existência dos fumódromos é criticada por vários especialistas em saúde. Eles alegam que esses locais concentram substâncias tóxicas, prejudicando ainda mais a saúde dos fumantes e dos não fumantes, pelo fato de as portas ficarem abertas e os gases contaminarem os demais ambientes.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o tabagismo gera uma perda mundial de 200 bilhões de dólares por ano, e a metade dela ocorre nos países em desenvolvimento. O valor, calculado pelo Banco Mundial, é o resultado da soma de vários fatores, como tratamento de doenças relacionadas ao tabaco, morte de cidadãos em idade produtiva, maior índice de aposentadorias precoces, aumento no índice de falta ao trabalho e menor rendimento produtivo. Ainda segundo o Inca, 90% dos pacientes com câncer de pulmão são fumantes.

Os estabelecimentos que não cumprirem as normas em Minas Gerais, caso a lei seja aprovada, estarão sujeitos à multa que varia de R$2.034,90 a R$6.104,90. Esse dinheiro arrecadado será aplicado na prevenção e no tratamento do câncer. O texto final do projeto de Lei será enviado ao governador Aécio Neves, que tem 15 dias, após o recebimento, para sancionar ou vetar.

Lei antifumo em São Paulo:

A Lei entrou em vigor no estado no dia 7 de agosto de 2009 e não admite os fumódromos. A proibição vale para áreas fechadas de uso coletivo, como bares, restaurantes, casas noturnas, escolas, ambiente de trabalho, museu, shoppings, lojas, repartições públicas e táxis.

O fumante não é punido, mas pode ser obrigado a deixar o local. A multa para o proprietário é de R$792,50 no primeiro flagrante. Caso haja reincidência, o valor sobe para R$1.585,00. Na terceira vez, o estabelecimento fica com o alvará suspenso por 48 horas e na quarta a interdição será de um mês.

A Secretaria de Saúde de São Paulo divulgou um balanço feito entre agosto e outubro, que mostrou alto índice de adesão à Lei: 99,6%. Foram realizadas 12 431 fiscalizações e aplicadas 288 multas. O secretário de saúde do Estado, Luiz Roberto Barrados Barata, disse que a Lei antifumo pode gerar uma economia de cerca de R$90 milhões aos cofres públicos por ano – valor gasto com o tratamento de fumantes passivos.

Impactos econômicos

Muitos empresários mineiros ficaram insatisfeitos com a proposta de Lei, por temerem prejuízos para os estabelecimentos comerciais. No entanto, não existe nenhum estudo objetivo, independente e avaliado por especialistas, que sustente tal alegação. Pelo contrário, todos os estudos legítimos de impacto econômico sobre os negócios não mostram nenhum efeito econômico prejudicial após uma lei antifumo entrar em vigor.

As políticas antifumo podem trazer benefícios econômicos como: menores custos médicos diretos para cuidados com condições atribuíveis ao fumo passivo e redução nos custos de seguro; aumento da produtividade entre aqueles que abandonaram o fumo, menores custos para manter os edifícios e menor responsabilidade do empregador sobre funcionários expostos ao fumo passivo no ambiente de trabalho.

Um estudo recente da Society of Actuaries (Associação dos Atuários) estima que a exposição ao fumo passivo resulte em mais de 10 bilhões de dólares em custos econômicos diretos e indiretos (tais como: invalidez, salários perdidos e benefícios relacionados) anualmente nos Estados Unidos.

Ralph Findlay, executivo chefe da WolWerhampton & Dudley Breweries, uma das maiores redes de pubs da Grã-Bretanha, descartou previsões tenebrosas para a indústria e afirmou que atmosferas enfumaçadas desencorajavam os não fumantes a irem a pubs. “Cerca de 35% da população atual não vai a pubs por causa da fumaça de cigarros. Portanto, quanto mais pudermos fazer para incentivar esse grupo de pessoas, melhor”, destaca.

Nova lei não agrada a todos
A aprovação do projeto de Lei número 3035/09, que permite o uso do tabaco em fumódromo, áreas fechadas com arejamento suficiente ou equipados com aparelhos que garantam a exaustão do ar para o ambiente externo, não foi aceito de bom grado pelo setor da saúde.
Segundo a coordenadora do programa de controlo do tabagismo da secretaria municipal de saúde de Belo Horizonte e membro da Associação Médica de Minas Gerais, Maria das Graças Rodrigues de Oliveira, essa nova lei não é tão nova assim, pois ela é idêntica à lei federal 9294/96 e não trouxe inovação nenhuma à sociedade.
A doutora Maria das Graças ainda afirma que o Fumódromo é ineficaz, pois ele não um sistema de ventilação capaz de evaporizar o fumo sem o vazamento do mesmo, e para isso seria preciso que se ter um sistema muito potente que impedisse a projeção dessa fumaça para exterior, que segundo o Instituto Nacional do Câncer é quase impossível. Outro aspeto questionado é o fato de que não se leva em conta a saúde dos funcionários e principalmente dos garçons que trabalham nos fumódromos.
As entidades científicas de saúde do Brasil, a Associação Médica Mineira e brasileira e ONGs de tabagismo e a Aliança de controle do tabagismo estão unidas no movimento contra a lei 3035/09, de modo pressionar o Governador do Estado, Aécio Neves da Cunha, a não sancionar a lei.
“O discurso do fumódromo é um discurso da indústria do tabaco, para manter os lucros em bares, restaurantes, hotéis...” afirma a Doutora Maria das Graças que também acredita ser necessária a atualização dessa lei, pois ela não protege a saúde por causa da interferência dos fumódromos, e também por que o Brasil assinou a convenção- Quadro para controle do tabaco, tratado internacional da Organização Mundial da Saúde para a redução do consumo de cigarros e de outros produtos derivados do tabaco.

A lei anti-fumo continua causando idéias controversas tanto entre os juristas como no campo da saúde.


Curiosidades sobre o tabagismo:
Se o fumante parar de fumar em qualquer época, há um aumento da sua sobrevida:

  • Aos 30 anos: ganho de 10 anos de vida
  • Aos 40 anos: ganho de 9 anos de vida
  • Aos 50 anos: ganho de 6 anos de vida
  • Aos 60 anos: ganho de 3 anos de vida

Dano ambiental provocado pelo tabaco:

  • A plantação do tabaco provoca a redução da agricultura de subsistência.
  • Incêndios (cerca de 30% de todos).
  • Poluição tabagista ambiental, levando ao tabagismo passivo e suas consequências (para cada 300 cigarros queima-se uma árvore).
IMPACTO ECONÔMICO NA INDÚSTRA DE HOSPITALIDADE (Fonte: tabagismo para a imprensa- Maria das Graças Rodrigues de Oliveira)


Ø Em Massachusetts, os donos de bares não notaram diminuição na sua clientela e, mais que isto, 20% deles relatam aumento da mesma após a lei de proibição de fumar em bares e restaurantes.
Ø Em 1995, a cidade de Nova York, estabeleceu a lei proibindo o tabagismo em restaurantes com mais de 35 lugares. Em 2001, a lei foi estendida para todos os restaurantes, independente de sua capacidade. Observou-se que não houve desemprego, aumentando-se em 18% o número de empregos entre 1994 e 1999.
Ø Em 2001, no Canadá, a cidade de Ottawa adotou a lei de proibição do tabagismo em ambientes de trabalho, em locais públicos, bares e restaurantes. Em 2002, foi feita uma análise econômica em bares e restaurantes, não tendo sido encontrado nenhum impacto significante.
Ø Em 2004, a Nova Zelândia introduziu políticas de proibição do tabagismo em bares e restaurantes e, após um ano, perceberam-se efeitos positivos na proteção à saúde dos patrões e empregados e não houve desemprego ou perda de lucratividade.

A instituição de bares, restaurantes e similares sem tabaco traz benefícios econômicos para o empregador:

* redução dos custos com manutenção, seguros de saúde e seguros contra incêndios

* prevenção do ajuizamento de ações judiciais pelos funcionários, com vistas ao ressarcimento pelos danos à saúde provocados pela exposição ao tabagismo ambiental.

* os empregados fumantes apresentam menor taxa de absenteísmo e maior produtividade

Diversos documentos revelam que o lucro de bares e restaurantes, em vários países do mundo, não diminuiu após a entrada em vigor de leis proibindo o tabagismo em locais fechados.
Ø A Califórnia eliminou o tabagismo nos ambientes privados de trabalho em 1995, nos restaurantes em 1995 e, nos bares, em 1998. O lucro destes últimos estabelecimentos tem subido desde então. Em 1995, era de 25,5 bilhões de dólares e, em 2001, chegou a 36,8 bilhões de dólares. Além do lucro, notou-se também um aumento da abertura de bares e restaurantes (os dados mostraram que, de 1997 a 2001, foram abertos 140 bares a mais).

Fonte: Tobacco Scam. Copyright 2002. Regents of the University of California. 2002 - 2009


Lei Antifumo não preocupa proprietários de bares da capital mineira

Os donos de bares e restaurantes de Belo Horizonte não acreditam na diminuição do movimento após a sanção da lei antifumo pelo governador mineiro, Aécio Neves. É isso que revelam os sócios-proprietários do Bar Buritiquim – localizado no bairro São Pedro, próximo à Savassi – Eduardo de Salles Calvelhe, 35, e Mariana Fernandes Roberto Maia, 28: “Lá no Sindicato [de Hotéis, Bares e Restaurantes] ninguém falou sobre essa lei ainda […]. A maioria dos nossos clientes não fuma, por isso não nos preocupamos”, revelam.

A constatação do casal é realmente muito comum entre os donos de bares e restaurantes. O número de fumantes tem diminuído consideravelmente nesses locais. Segundo Eduardo, grande parte dos seus clientes não fuma e, aliás, se incomoda com quem fuma perto deles: “Certa vez, estavam, pai e filha, almoçando naquela mesa (aponta para uma mesinha no local). Um rapaz que estava na mesa onde estamos agora acendeu um cigarro e começou a fumar. A fumaça era jogada sempre para onde estavam pai e filha. Incomodados, os dois se levantaram e foram se sentar lá dentro. O fumante percebeu e apagou o cigarro. Mas foi a única vez que aconteceu algo do tipo. É muito difícil ver alguém fumando aqui”, conta. É fácil de perceber que, muitas vezes, os próprios fumantes têm consciência de que a fumaça do cigarro prejudica aqueles que a estão aspirando. Além de muitas vezes terem consciência do mal que o fumo faz para eles mesmos.

Os não fumantes reclamam da fumaça que impregna nas roupas, cabelos e provoca irritação nos olhos, além do acesso de tosse, conseqüência da grande quantidade de gases inalada. Os que não possuem esse hábito saúdam a lei antifumo com grande alegria.


Eduardo Calvelhe e Mariana Maia não acham que a lei prejudicará o movimento no Bar Buritiquim, do qual são donos. (Foto por Leonardo Dias)











Perto da Aprovação, mas longe de um Consenso

Prevista para ser sancionada dentro dos próximos 30 dias pelo Governador Aécio Neves, a Lei Antifumo de Minas Gerais, não prevê medidas educativas e ainda possui várias pendências. “Não há campanhas educativas previstas na lei. Deixamos isso para a Secretaria de Saúde. Algumas decisões ainda terão de ser tomadas pelo governo do Estado”, afirma o deputado estadual Alencar da Silveira Júnior (PDT), um dos autores da lei.
Aprovada em primeiro turno pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais, em agosto deste ano, o Projeto de Lei 3.035/09, que proíbe o fumo em locais fechados de uso coletivo, é mais flexível que a legislação recém-aprovada no estado de São Paulo. Aqui, as pessoas poderão fumar em condomínios e em espaços abertos públicos ou privados. Além disso, a multa aplicada sobre o estabelecimento que não cumprir a lei poderá ser dividida e até mesmo repassada ao fumante.
Entretanto, pontos importantes ainda estão incertos, como por exemplo itens referentes a forma de fiscalização do cumprimento desta lei, que terá um prazo de 120 dias, depois de sancionada pelo governo, para ser colocada em prática. “Ainda não está certo como o governo vai fazer esta fiscalização. Ele deve criar blitz nos estabelecimentos”, aposta o deputado. Alencar transfere a responsabilidade com a fiscalização para a sociedade. “A própria população é quem tem que fiscalizar”, e comenta que mesmo assim, não acredita que isto pode dificultar o cumprimento da Lei, como aconteceu com a Lei Seca. “Não acho que a Lei Antifumo não 'vá pegar', como ocorreu com a Lei Seca”.
Outra pendência se relaciona com o órgão que ficará responsável pela arrecadação das multas pagas pelos infratores. Variando entre dois e seis mil reais, a lei destinará o valor das multas para hospitais que tratam de doenças relacionadas a este vício, mas não descreve quais são estas instituições e tampouco como será feito esse repasse.
Fumódromos
Uma questão que divide a opinião pública se refere ao fato da lei prever a criação de fumódromos - espaço destinado aos fumantes, isolado por barreira física e com sistema de exaustão adequado. “Existe um projeto do Ministério da Saúde, que está na casa civil a mais de um ano, tirando o fumódromo da lei federal. O que se sabe é que não existe nenhum aparelho de ventilação e nenhum exaustor que consiga aspirar toda a quantidade de fumaça advinda do cigarro, que tem 4720 substâncias tóxicas”, defende Maria das Graças, pneumologista e integrante da comissão antitabagismo da Associação Médica de Minas Gerais.
O custo da construção de um fumódromo, que realmente preserve a qualidade do ar, dentro das exigências da Secretaria de Saúde, é avaliado em 120 mil reais, segundo o deputado Alencar da Silveira. Este valor o torna distante da realidade brasileira. “Mantemos os fumódromos na lei apenas para torná-la constitucional. Ele é inviável para a realidade brasileira”, justifica.
Antes da aprovação da lei, a Copasa criou um espaço, que mesmo não sendo certificado quanto ao cumprimento das exigências da Secretaria da Saúde, é destinado aos funcionários fumantes. “A partir de uma pesquisa realizada em 2005, onde 94% das pessoas fumantes e não fumantes achavam correto implantar um local específico para se fumar no ambiente de trabalho, nós criamos uma norma na empresa, restringindo os espaços para o fumo”, explica a psicóloga Aparecida Rodrigues Lacerda, coordenadora do programa anti-tabagismo da Copasa”.
A doutora Maria das Graças questiona a necessidade de se colocar na lei, uma exigência tão distante de ser praticada devidamente e aponta os riscos de tal medida. “Os fumódromos são extremamente questionáveis. Os garçons dos estabelecimentos, por exemplo, tem que ir onde estão os fumantes. São eles quem tem um risco muito maior de câncer no pulmão, acidente vascular cerebral e infarto do miocárdio”, conclui.

Lei antifumo: sob a ótica do preconceito

Reportagem produzida por
Danilo Girundi e Pedro Schetini



Charutos e outros produtos vendidos dentro de tabacaria da capital


Aprovado em primeiro turno no dia 11 de agosto de 2009, o projeto de lei 3.035/09 que proíbe o fumo em locais fechados públicos e privados e de uso coletivo no estado, espera por sanção do governador Aécio Neves.

A lei mineira permite o fumo em tabacarias e em locais que possuam fumódromos. Segundo Alencar da Silveira Jr., deputado estadual responsável pela criação do projeto, a lei mineira não “é mais frouxa, ela é aplicável e não é anticonstitucional como a de São Paulo” relatou durante sua coletiva com a equipe do blog na terça-feira dia 17 de novembro.

Será que esta nova lei não é uma forma moderna de preconceito e de excluir pessoas que desviam do comportamento considerado correto pela maioria da sociedade? Fomos atrás desta e de outras respostas.


Entrada do pub Saar tobacco

De acordo com Marcílio Saar de 46 anos, proprietário da mais antiga tabacaria da zona sul da capital mineira, o pub Saar tobacco, a expectativa é de que realmente o movimento aumente após a aprovação da lei, mas que a sua tabacaria já está preparada e que nenhum investimento estrutural, como a ampliação da loja, será feita. “Aqui eu já tenho a estrutura montada, exaustores para retirar à fumaça, por exemplo, não penso em ampliar a loja o que eu poderia fazer é abrir outro ponto”, conta o empresário.

O proprietário não concorda com a lei, pois para ele, ela é uma forma de discriminação. “É a maioria pagando pelos erros da minoria”, conta Marcílio. A minoria segundo ele são aquelas pessoas que fumam em restaurantes e em locais com crianças, que não se importam com o bem estar alheio. Marcílio diz que não fuma perto de comida e de crianças, por não achar correto.


Marcílio em seu pub na Av. do Contorno, próximo a Rua da Bahia

Carlos Shiffer empresário de 42 anos, conta que quando a lei entrar em vigor vai procurar um lugarzinho em alguma tabacaria da capital. “Até que não vai ser tão ruim, vou fumar tranqüilo sem ninguém para reclamar, mas acredito que esta lei é pejorativa para com os fumantes”, desabafa Carlos.

“Estão segregando os fumantes, separando-os das pessoas que não fumam. Parecido com o Apartheid”, brinca Marcílio. Esse sentimento se deve ao motivo de fumantes não poderem fumar em determinados locais não preparados para recebê-los, diferentes de tabacarias que aceitam sem problema pessoas fumantes e não-fumantes.

Quando perguntado sobre um possível preconceito contra os fumantes, o estudante Alexandre Pinto diz que os fumantes “são os judeus da atualidade, as pessoas estão com repulsa da gente”, fala Alexandre. Já Lorena Martins, gerente de uma boate de Belo Horizonte, não fala em preconceito. Para ela a lei é ótima, “porque vai impedir que pessoas não fumantes como eu tenham que trabalhar respirando o vício de outras pessoas”, opina a gerente.

O dono do Saar pub, ainda comenta que esta lei antifumo começa a se tornar uma brecha para a criação de novas proibições. “Daqui a pouco vão proibir sair de casa com camisa verde, pois algumas pessoas se sentem incomodadas. Acho que o certo seria deixar cada um escolher o que realmente quer fazer, sem tirar a liberdade da pessoa de querer fumar”, afirma Marcílio.

Questionados sobre o funcionamento da lei, ambos entrevistados acreditam que ela realmente “vai pegar”. Marcílio ainda ressalta que as próprias pessoas não fumantes vão ajudar e contribuir com a fiscalização. “Eles serão os novos fiscais do Sarney”, completa.

Carlos comenta que sabe dos riscos de ser um fumante e que isso é um problema dele, mas não acha que outras pessoas devem sofrer com os malefícios do fumo por causa de algumas pessoas. “Por isso torço pela funcionalidade da nova lei”, diz o empresário. “Quem é responsável não vai burlar a lei”, conversa Marcílio.

O Cigarro ontem e hoje


O fumo passou de hábito das grandes estrelas e de pessoas de inteligência e status para vício reprovável e autodestrutivo, na visão da sociedade



Audrey Hepburn na era de ouro do cigarro ao lado de um dos símbolos que mais vemos atualmente, em diversos lugares: Proibido Fumar


Quem não se lembra das imagens mais célebres de Audrey Hepburn, sempre elegante, fumando cigarros em sua famosa piteira? Pois o hábito de fumar foi símbolo de poder, sensualidade e status, principalmente nas décadas de 30 a 60, em que era relacionado sempre com pessoas elegantes e charmosas e com a cena boêmia. Muita coisa mudou na sociedade nas últimas décadas e as pessoas passaram a ter um novo olhar sobre o tabagismo: um hábito irresponsável e um vício que incomoda. Essa nova visão está cada vez mais forte e agora está ganhando o respaldo de leis antifumo que estão sendo aprovadas nas grandes capitais do país, Belo Horizonte entre elas.


“O cigarro virou uma coisa chique foi por causa de uma referência de uma vida boêmia de pessoas que eram consideradas chiques, muito resolvidas e também por uma relação do indivíduo consigo mesmo”, diz o professor do curso de Ciências Sociais e de Comunicação Social da PUC Minas, Euclides Guimarães. Ele também atribui a popularização do fumo ao caráter introspectivo do hábito, em que o indivíduo entrava em contato consigo mesmo. O cigarro também foi símbolo de libertação, especialmente quando as mulheres também se habituaram a fumar. “Introduz-se nesse hábito o feminino, quase como espécie de símbolo da emancipação da própria mulher sobre o status masculino, numa sociedade machista”, explica Euclides.


CINEMA E PUBLICIDADE

O cinema também teve papel importante na consolidação dessa imagem positiva do tabagismo na primeira metade do século XX. Filmes como Bonequinha de Luxo e Casablanca ilustravam a cena boêmia com bastante glamour, como um grupo de pessoas inteligentes e de expressão, sempre fumando um cigarro ou um charuto. “Fumar era chique, era só pra estrelas de Hollywood, só para mulheres bonitas e bem sucedidas”, afirma a contadora Heloísa Moreno, de 53 anos, que fumou por grande parte de sua vida. Ela diz também que o cigarro era tão comum em sua juventude que ela começou a fumar os cigarros do pai, sem a menor repreensão. “Nem escondido a gente fumava”, ela conta.


A publicidade do tabagismo nas décadas de 30, 40 e 50 refletia a percepção da época sobre o hábito de fumar. “O cigarro foi um dos primeiros produtos a enxergar essa coisa de valor agregado, que não vende apenas o produto, vende um estilo de vida de certa maneira associado ao produto”, diz o professor Euclides. Além da cena boêmia que o popularizou, as propagandas de tabaco dessa época envolviam médicos, esportes e até bebês (ver imagens abaixo). Nenhuma delas expunha corretamente os malefícios do fumo, e as pessoas passavam a fumar sem saber ou sem se importar com os males à saúde provenientes do hábito, como foi o caso de Heloísa, que conseguiu largar o vício.


MUDANÇA NA IMAGEM DO FUMO

Á medida que as descobertas da Medicina sobre o impacto do cigarro no corpo humano passaram a ser melhor divulgadas, a antiga visão do hábito de fumar foi se transformando e se deteriorando. O cigarro passou a ser visto como ato irresponsável, reprovável e de autodegradação. “Aparece uma nova ética, uma ética narcísica, um sentimento de culpa que você não tem com os outros, mas tem para si mesmo. E o advento dessa ética narcísica começou a questionar uma série de hábitos que mostram certo descuido do indivíduo para consigo mesmo, no sentido de irresponsabilidade mesmo”, explica o professor Euclides, que atribui a mudança brusca da visão do cigarro a essa nova ética que se desenvolveu nas últimas décadas.


A partir dessas novas idéias sobre o fumo, surgiu uma verdadeira campanha anti-tabagista na sociedade atual. As pessoas que fumam são alvo de repreensão e as não fumantes são desencorajadas a adquirir o hábito. “As pessoas que fumam estão cada vez mais sendo tolidas e há um preconceito bastante grande em relação ao cigarro”, afirma a engenheira Mara Maria de Araújo, de 50 anos, que começou a fumar por influência dos amigos e não parou mais. Essa discriminação muito se explica pelo incômodo que o não fumante sente ao estar no mesmo ambiente de um fumante.


AS LEIS ANTI-TABAGISTAS

Seguindo essa campanha antifumo que se estruturou na sociedade atual, várias capitais aprovaram e estão aplicando uma série de leis que restringem os espaços onde as pessoas podem fumar. Se sancionada pelo Governador Aécio Neves, a nova lei antifumo vai proibir que fumantes traguem seus cigarros em locais públicos fechados em Belo Horizonte. Além disso, a lei estabelece critérios mais rígidos para a liberação dos chamados “fumódromos” (leia mais).


O Deputado Estadual Alencar da Silveira Jr., um dos autores do projeto da lei, afirma que o objetivo dessa nova lei é realmente coibir o fumo em Minas Gerais. “As pessoas vão ter que entender que fumar faz mal a elas. A lei vai diminuir o consumo do cigarro”, diz o deputado. A lei mineira é diferente da de São Paulo, o foco dos autores foi na aplicabilidade do que foi estabelecido pela lei.


A aplicação dessa lei divide opiniões. “Eu sou contra esse tipo de lei, porque o fumante é um doente, como um alcoólatra. Eu que já parei de fumar sei o duro que é”, afirma a contadora Heloísa. Já Mara levanta dois lados da questão. “No caso da cidade de São Paulo, que o nível de poluição é muito alto, eu acho que a proibição do fumo em qualquer lugar é meio inócua, do ponto de vista de saúde. O que eu acho vantajoso é do ponto de vista do incômodo, por que o cigarro incomoda as outras pessoas que não fumam”, salienta a engenheira.



Propagandas antigas de cigarros eram associadas a esportes e à uma vida saudável, à imagem dos médicos e chegaram a utilizar até bebês!


Leia mais sobre a História do Cigarro.

Veja os dois lados da questão: Organização Fumantes Unidos e Associação Mundial Anti-tabagista (AMATA Brasil)

Veja o perfil de Alencar da Silveira Jr. no Twitter.


Fotos das propagandas retiradas do site Smoking Pot e de outros.

Por Renata Dias Ferreira